vácuo

e foi comendo os espaços em branco, como uma traça, a se livrar das entrelinhas. guardaria consigo apenas as letras, histórias que viveu de fato, em tato, olfato e outras coisas que não poderia descrever agora. saiu jogando todo o resto fora. quer dizer, dentro. lugares vazios, o colchão – do lado frio -, as horas, os silêncios, as histórias, todas, que não tinha a quem contar, a música que ouvia no rádio, e cantava sozinha.
foi deglutindo as lacunas. o lugar à mesa, a toalha sobrando no banheiro, o travesseiro a mais. as roupas que não lhe cabiam. roía.
à noite, sentiu-se mal. sozinha. cheia até os cabelos. aquele nada todo a lhe consumir as entranhas.
não dormia. o buraco que agora sentia era de dentro. para fora.
teimava em subir-lhe pela boca em golfadas que queimavam até as narinas.
um imenso não-sei-o-quê pesava-lhe o estômago, a boca, o peito, a cabeça.
tremia. imersa no nada que agora vomitaria.
tinha medo de morrer sufocada num imensurável vazio.

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Uma resposta to “vácuo”

  1. d meira Says:

    :)

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