Archive for agosto \11\UTC 2010

vácuo

11/08/2010

e foi comendo os espaços em branco, como uma traça, a se livrar das entrelinhas. guardaria consigo apenas as letras, histórias que viveu de fato, em tato, olfato e outras coisas que não poderia descrever agora. saiu jogando todo o resto fora. quer dizer, dentro. lugares vazios, o colchão – do lado frio -, as horas, os silêncios, as histórias, todas, que não tinha a quem contar, a música que ouvia no rádio, e cantava sozinha.
foi deglutindo as lacunas. o lugar à mesa, a toalha sobrando no banheiro, o travesseiro a mais. as roupas que não lhe cabiam. roía.
à noite, sentiu-se mal. sozinha. cheia até os cabelos. aquele nada todo a lhe consumir as entranhas.
não dormia. o buraco que agora sentia era de dentro. para fora.
teimava em subir-lhe pela boca em golfadas que queimavam até as narinas.
um imenso não-sei-o-quê pesava-lhe o estômago, a boca, o peito, a cabeça.
tremia. imersa no nada que agora vomitaria.
tinha medo de morrer sufocada num imensurável vazio.

Anúncios

um fim de semana para não pensar

10/08/2010

almoço com as amigas, sábado, missa com a mãe, tapioca na sé, livraria cultura, estreia de uma peça na cidade, reuniãozinha na casa (nova) de amigos, dorme, diana, dorme… café da manhã na padaria, livraria cultura, feira, demorar beeem muito escolhendo as frutas, jantar com o pai no dia dos pais na (pizzaria, claro) Gondola-não-consigo-dizer-tomaselli, coloca os meninos para dormir e, antes de deitar, ler, ler, ler, até os olhos desfocarem o papel na sua frente. até que enfim, segunda-feira. chove no recife.

antídoto: try a little tenderness – otis redding

:)

dia zero, ano algum

02/08/2010

e como se todas as coisas tivessem sido tragadas para lugar nenhum, restou apenas um enorme vazio. Lento, denso, pesado, difícil de arrastar. ela se deixou ficar ali olhando, imaginando tudo o que teria que fazer, novamente, para repovoar de coisas aquele nada que silenciosamente se erguia a sua volta. então chorou. delicadamente. lágrimas que nasciam vivas e quentes brotaram de seus olhos sem parar. para depois morrer no decorrer da face.