Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

o sertão em mim é um estado de espírito

prólogo: é, eu sei, a frase é muito boa, mas não é minha. pertence a ariano suassuna e eu já usei aqui outras vezes. esse post refere-se a viagem que fiz para o sertão, a serviço da secretaria de cultura, de 28 de novembro a 4 de dezembro últimos. fomos de ônibus, 14 pessoas. mais dez de carro, incluindo os motoristas. passamos por afogados da ingazeira (onde eu nasci), salgueiro e belém do são francisco (onde morei dois anos). eu juro que cortei o texto. e muito. não, eu não tive tempo, por isso que o texto ficou assim. de todo jeito, agora não devo mais nada:

minha mãe sabia o que estava fazendo quando, aos 18 anos, grávida, viajou sozinha, de trem, de caruaru a afogados da ingazeira, em 1973, para dar à luz no sertão, dispensando o agreste. eu ainda desconhecia, mas essa foi a minha primeira viagem. gosto de trens até hoje. contraditória, não consigo viver nos trilhos. amo a estrada, não suporto o peso das malas. se pudesse, viajaria a esmo, sem elas.

não foi o caso do meu último roteiro. tinha ponto de partida, porto de chegada, dia e hora certos para vir embora. despedida com data agendada. fui entrando pelo sertão ruidosa. eu, um ônibus, 12 artistas, turnês, trajetórias, histórias de vida. era assunto para dois mil quilômetros, mas o caminho só permitiu trezentos e oitenta.

então era ali onde eu tinha nascido? sim. não estão vendo? o colégio, a igreja, a praça, a casa da minha tia, a rua, o pé de serigüela de dona nega… tudo quase exatamente no mesmo lugar.

acontece que eu parti. várias vezes, desde sempre. caruaru, belém, são josé da laje (depois eu explico), recife, são paulo. uma retirante reincidente. ir embora me ensinou várias coisas. principalmente a voltar.

a afogados da ingazeira que eu reencontro, senhores, me perdoem, não é a mesma que vocês conseguem ver. tem alma de menina, aquela. sorri da vida, é encantadora, brinca na rua, tem cheiro de chuva e gosto de poeira. carrega consigo sentimentos que parecem difíceis, mas que lhe vieram fáceis com a leveza da infância. sinceridade, espontaneidade, alegria, companheirismo, generosidade, e uma certa rispidez, de vez em quando.

afogados da ingazeira é isso. reencontrá-la é recuperar algo que só existe em mim. essa cidade não se dá aos olhos. eis o estado de espírito. ela está ali para me lembrar de onde vim, para me mostrar como sair foi importante, e para reconduzir no regresso, senão à cidade, pelo menos a mim mesma.

o fim da viagem passava por belém do são francisco, com suas ruas largas, casinhas coloridas, pelo rio da minha infância, o singrado dos barcos cortando as águas.

eis do que eu sou feita. das terras do pajeú, das águas do são francisco. (peeense!). hoje, eu não tenho dúvidas. tudo em mim veio dali. os gostos, os riscos, a maneira de ver o mundo. é o meu ponto de partida. e é também para onde eu preciso voltar quando não me encontro.

o sertão me devolve a essência. é a claridade, a limpidez, a transparência. é ali onde estão as minhas certezas, as minhas alegrias e as minhas dores. voltei de lá com a sensação de que sei exatamente do que sou feita, entendo o que quero e acho que tenho direito de buscar até o fim. mas esse está longe, muito longe de ser um caminho fácil. voltei no ônibus calada, sentada sozinha na última cadeira, me distraindo em disfarçar as lágrimas. chorei até o agreste. dormi até o litoral. quando eu morrer, joguem minhas cinzas no pajeú. voltei ao recife.

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